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# 9 | Maio de 2002 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
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EDITORIAL
Escrever sobre as antigas artes de combate oriundas do Extremo Oriente é sempre algo ingrato. A maioria das fontes consultadas começam, quase sem excepção, por salientar a escassez de textos, susceptíveis de fornecerem pistas mais precisas do que as tradições e registos orais cujos ecos chegaram até nós. E também quase todas são unânimes em atribuir esse facto ao secretismo que, durante séculos, envolveu tais práticas.
Assim, o tema que, desta feita, decidimos abordar mais não é que uma curta síntese daquilo que pode ser facilmente encontrado na maioria dos livros e artigos que, até à data, foram escritos sobre o assunto.
No entanto, como sempre, esperamos que gostem e aguardamos sugestões e comentários, através do endereço comments[at]revista-temas[dot]com
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ARTES DE COMBATE SEM ARMAS DO EXTREMO ORIENTE
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Ainda envoltas em mistério, e, na sua essência, verdadeiramente desconhecidas para quase todos, as artes de combate de mãos nuas originárias da Ásia Oriental e que se disseminaram um pouco por todo o mundo, são ainda com frequência vistas apenas como um mero desporto ou como uma actividade violenta, praticada sobretudo por marginais ou pessoas com personalidades conflituosas. E, no entanto, nada poderia estar mais longe da verdade. Se bem que a vertente desportiva das artes marciais talvez seja hoje a mais difundida, não só em razão da sua eficácia, como também pela destreza física exibida pelos seus praticantes, a origem milenar de tais práticas nada teve a ver com o desporto, nem sequer com a competição.
Profundamente influenciadas por conceitos filosóficos, religiosos, morais, éticos e de conduta pessoal, para inúmeros adeptos, ao longo dos séculos, as artes marciais converteram-se numa via espiritual, num percurso que molda todos os aspectos da sua existência.
Existem numerosas artes de combate orientais, cada uma incluindo vários estilos, que, por seu turno, englobam um imenso leque de diferentes escolas. Regra geral, cada uma delas corresponde a uma interpretação particular, por parte dos respectivos fundadores, dos ensinamentos originais legados pelos mestres das artes mais antigas. A principal razão de ser de tal variedade prende-se com a falta de registos, nomeadamente de textos e ilustrações, produzidos por esses grandes mestres, ou recolhidos e compilados sob sua supervisão directa. Assim, muitos conceitos foram perdidos, e boa parte daquilo que chegou aos nossos dias é baseado no estudo e nas memórias de alguns discípulos, memórias essas que, ao serem finalmente passadas a escrito frequentemente quando esses mesmos discípulos tinham alcançado uma idade avançada , por vezes se apresentavam já confessamente obscuras. Permanecem, por isso, muitas incertezas, quanto ao significado e à importância de alguns ensinamentos, e prossegue a busca por fontes fidedignas.
Se bem que em praticamente todos os países do Extremo Oriente possamos encontrar uma qualquer forma de arte marcial local, acredita-se que, na sua maioria, terão tido uma origem comum. Na impossibilidade de as abordar a todas, este curto texto irá debruçar-se sobretudo sobre uma arte de combate de mãos nuas surgida em Okinawa a principal das Ilhas Ryukyu, um pequeno arquipélago situado na encruzilhada das antigas rotas comerciais que ligavam a China, a Formosa e o Japão , e que talvez tenha sido a que mais rapidamente se popularizou no Ocidente, depois de ter sido aprendida e praticada por muitos soldados norte-americanos aí estacionados numa base militar, após a Segunda Guerra Mundial. É hoje conhecida como Karaté.
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Em cima, à esquerda:
Estátua de Buda.
(Foto: Corel Corporation)
Em cima, à direita:
A serenidade
de um Jardim Zen.
(Foto: Corel Corporation)
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O despontar das artes marciais chinesas
Muitos crêem poder encontrar as influências mais remotas do Karaté na Índia, e o seu surgimento encontra-se relacionado com a difusão do Budismo. Mas ao pretender traçar esse percurso, é difícil, senão mesmo impossível, destrinçar o que são factos, lendas e tradições. Possivelmente existirá de tudo um pouco, e os estudiosos têm opiniões diversas. Porém, é aceite pela maioria deles que, algures entre os séculos V e VI, um monge budista, Bodhidharma (embora haja autores que contestam a sua existência), príncipe de um reino indiano e tido como o criador do Budismo Zen, cruzou os Himalaias e viajou para a China, onde obteve do imperador Wu autorização para se deslocar à provícia de Hunan, a fim de aí ensinar a sua interpretação dos preceitos budistas aos ocupantes de um mosteiro local. Esse templo viria a tornar-se mítico e era conhecido como «Shaolin» («jovem floresta»).
Conta-se que as primeiras técnicas de artes marciais de mãos nuas surgiram como resposta a uma necessidade de defesa pessoal, sendo adoptadas por caminhantes e mercadores pobres sem posses suficientes para contratar escoltas que os protegessem durante as suas viagens. O próprio Bodhidharma (ou Daruma Taishi, como foi chamado no Japão) terá sido atacado por salteadores e animais selvagens no decurso do seu longo trajecto até Hunan. Porém, pertencendo, ao que se julga, a uma casta guerreira do sul da Índia, dominava uma já antiga arte de combate indiana designada Vajramushti, que viria a ensinar no mosteiro chinês.
O processo de estudo que implementou em Shaolin implicava, para além de períodos de meditação e de uma severa disciplina e preparação mental, a prática de treinos fisicamente exigentes ambos auxilares preciosos, segundo o Zen (conhecido na China como Ch'an), no desenvolvimento espiritual necessário para atingir o estado de «iluminação» alcançado por Buda, e que constitui o propósito de todos os budistas. Mas tais práticas eram tão rigorosas que os monges ficavam extenuados.
Bodhidharma desenvolveu então um sistema de treino progressivo, baseado em técnicas respiratórias especiais e em movimentos de mãos, por forma a dotar os seus discípulos quer de mais força, quer de maior resistência física. Segundo parece, tê-lo-á registado por escrito com o nome de Ekkin-Kyo, considerado por alguns como sendo o primeiro livro sobre Karaté.
Apesar de, provavelmente, já serem conhecidas em Shaolin primitivas formas de luta sem armas, considera-se que os ensinamentos de Daruma Taishi, imbuídos das vertentes filosófica e espiritual, podem ser encarados como a base da maioria das artes marciais chinesas, nomeadamente do estilo particular de boxe praticado no próprio Templo, um método de luta designado Shorin-Ji Kempo.
Passando os monges, em consequência dos treinos, a estar mais aptos a defender-se de ataques inesperados e a poderem infligir sérios danos aos adversários, os princípios budistas que seguiam, de lealdade, honestidade, altruísmo e benevolência, impunham o respeito por um código moral e ético a ser escrupulosamente seguido. As técnicas de luta apenas deveriam ser exclusivamente utilizadas como autodefesa ou para ajudar terceiros, e nunca como forma de exibicionismo. É também interessante mencionar o facto de, nesses tempos, os mosteiros serem os principais detentores do saber médico, daí que os acólitos tivessem um conhecimento profundo da anatomia humana, o que, obviamente, lhes conferia a vantagem acrescida de conhecerem com exactidão quais os pontos vitais do corpo.
A fama de Shaolin como local onde se formavam os mais temíveis lutadores de boxe chinês acabaria assim por atrair seguidores e transcender fronteiras, nomeadamente quando os monges abandonavam o templo para difundirem o Budismo Zen pelos países vizinhos, como a Coreia, Okinawa ou o Japão. E se bem que o contacto com diferentes culturas tenha resultado em inevitáveis adaptações à realidade local, os princípios básicos permaneceram fiéis à filosofia de Shaolin.
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A própria designação
de Arte Marcial, traz implícita uma dimensão estética inerente à Arte. E não restam dúvidas de que a maioria das posturas e movimentos adoptados são dotados de beleza e harmonia.
Em alguns estilos particulares, como, por exemplo, no Kung-Fu, muitas das posições baseiam-se nos movimentos de animais e noutros elementos da Natureza. Na imagem, praticantes de Karaté treinam com armas tradicionais, adaptadas a partir de instrumentos agrícolas.
(Foto: Corel Corporation)
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O Mestre Gichin Funakoshi, nascido em Okinawa, na cidade de Shuri, aqui mostrado na que é, provavelmente, a sua fotografia mais conhecida.
Encarado como «pai» do Karaté actual, foi um dos seus principais impulsionadores.
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Fontes Consultadas:
History of Karate
Texto incluído no Web Site:
http://www.karatebc.org/
History of Shotokan Karate
Texto incluído no Web Site do Clube de Karate da Northwestern University:
http://www.studorg.nwu.edu/karate/
Karate - A Full History
Texto incluído no Web Site:
http://www.leicesterkarateclub.co.uk/ |
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Do Ch'uan-Fa ao Karaté
A partir dos conhecimentos trazidos de Hunan, muitas adaptações e desenvolvimentos surgiriam mais tarde, dando origem às várias artes de combate de mãos nuas, que se espalharam por toda a Ásia, chegando a regiões tão longínquas como o Vietname, o Camboja ou a Tailândia. Porém, aquela que haveria de influenciar o Karaté viria da própria casa-mãe. A sua designação em mandarim é Ch'uan-Fa («via do punho»), mas acabaria por tornar-se mais conhecida como Kung-Fu de Shaolin.
Como foi já referido, considera-se que o berço do Karaté moderno foi Okinawa. Alguns autores acreditam que, devido à posição geográfica da ilha, os seus habitantes desde muito cedo terão mantido contactos com o continente, mesmo ainda antes do aparecimento da escrita. A ser assim, as trocas culturais aparecem como uma inevitabilidade natural, não surpreendendo, por isso, que a Okinawa tivessem chegado monges de Shaolin, até porque, embora não se saiba ao certo desde quando, a partir de certa altura esta passou a ser regularmente utilizada como um ponto de escala nas travessias entre o Japão e o China.
Existem relatos que afirmam ter sido introduzida na ilha, durante a Dinastia T'ang (entre 618 e 906), uma modalidade de Ch'uan-Fa já semelhante ao Karaté. Outros alvitram que, durante o século VII, sobreviventes de navios provenientes do Celeste Império ou do arquipélago nipónico que haviam naufragado ao largo de Okinawa teriam acabado por se estabelecer junto dos ilhéus, partilhando com estes os seus conhecimentos das artes de defesa pessoal. Julga-se, no entanto, que já existiria aí uma forma anterior de luta com os punhos fechados, que se desenvolvera localmente, e denominada Te, hoje tida como a verdadeira raiz do Karaté.
Em 1372 o Rei Satto de Okinawa e o Imperador chinês acordam um intercâmbio de delegações culturais e a Ilha torna-se ainda mais permeável à cultura chinesa.
O Ch'uan-Fa dissemina-se então por todo o arquipélago Ryukyu.
Os maiores impulsos para o desenvolvimento do estilo de combate de mãos nuas praticado em Okinawa ocorreram quando, em várias ocasiões, os seus habitantes se viram impedidos de utilizar qualquer tipo de armamento.
Entre 1477 e 1526, sob o reinado de Sho Shin, foram proibidas todas as armas. Mais tarde, já no início do século XVII as Ilhas de Ryukyu caem sob controlo do clã japonês Satsuma e o arquipélago perde a sua independência. Uma vez mais privados do uso de armas, confiscadas pelos novos governantes no intuito de desencorajar quaisquer tentativas de revolta, os habitantes locais encontravam-se particularmente expostos não só às investidas de malfeitores como ao instável temperamento dos samurais.
Durante esses períodos, frequentemente longos, os grupos praticantes de Ch'uan-Fa e de Te reuniam-se em segredo, a fim de praticarem as suas artes e de decidirem como organizar a resistência. Treinavam-se em casas particulares, habitualmente a coberto da noite, para evitarem ser detectados. Foi também quando começaram a recorrer às alfaias usadas no trabalho do campo para se defenderem (e, se necessário, para atacarem, naturalmente). Armas temíveis, quando adequadamente manejadas, são, por exemplo, a famosa nunchaku (matraca), tradicionalmente usada para bater os grãos de arroz, a fim de separar as cascas, o sai, espécie de tridente com o dente central maior, empregue para furar o solo durante as sementeiras, ou o bo, um bastão longo, utilizado para guiar o gado ou para conduzir barcaças (como curiosidade, refira-se que alguns peritos reconhecem em algumas das artes marciais nipónicas que utilizam o bo pormenores técnicos que consideram terem origem no tradicional jogo-do-pau português, cujos exemplos mais conhecidos ainda hoje podem ser encontrados sobretudo no Norte de Portugal. Julga-se que tais influências terão chegado ao Japão ainda durante o período dos Descobrimentos, possivelmente levadas pelos marinheiros portugueses).
Em três cidades de Okinawa, Shuri, Naha e Tomari, haviam sido erguidas três escolas de Te. Sendo cada uma delas representativa de distintos estratos sociais Shuri era uma cidade de nobres, Naha era dominada por negociantes, e Tomari contava numerosos camponeses e pescadores aí eram ensinados diferentes estilos de autodefesa, que tomaram, respectivamente, os nomes de Shuri-Te, Naha-Te e Tomari-Te. Porém, esses estilos diferiam entre si apenas superficialmente, motivo pelo qual eram colectivamente conhecidos como Okinawa-Te («a mão de Okinawa»), ou Okinawa-Tode («mão chinesa de Okinawa»). Durante a ocupação pelo Clã Satsuma as três escolas passaram à clandestinidade, tendo-se gerado em seu redor uma cortina de secretismo e esoterismo, propícia à propagação de numerosas lendas.
Mesmo com o fim da ocupação dos Satsuma (1875) e depois de o arquipélago ter passado a fazer parte integrante do Império do Sol Nascente, as sociedades secretas de Okinawa permaneciam relutantes à mudança. Talvez devido ao desaparecimento do anterior inimigo comum, as escolas de Shuri, Naha e Tomari começaram a encarar-se como rivais e o secretismo acerca do Tode manteve-se ainda por mais algumas décadas, até ao início do século XX.
O nome «Karaté» tem igualmente uma história curiosa. O ideograma kanji (os Kanji , um conjunto de vários milhares de caracteres com os quais se escreve a língua japonesa, foram importados da China através da Coreia durante o século V, e podem ser lidos de várias formas) usado para representar a expressão «Tode» pode também ser pronunciado «kara». Então Te foi substituído pelos mestres de Okinawa por Kara-te-jutsu («arte da mão chinesa»). Mais tarde, o Mestre Gichin Funakoshi, considerado como o fundador do Karaté moderno, e que o apresentou pela primeira vez publicamente no Japão, adoptou para o símbolo que representa «kara» o significado alternativo de «vazio», passando então o termo Karate a ser entendido como «mão vazia». Finalmente, é acrescentada a palavra Do, que, em japonês, significa «via» ou «caminho», expressando logo na própria designação que a prática desta arte é um percurso, constituindo uma busca permanente de aperfeiçoamento pessoal, baseada no equilíbrio físico e psíquico, na autodisciplina e no respeito por um código moral e ético assente em profundos princípios filosóficos.
Karaté-Do é, portanto, a «via das mãos vazias»...
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