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# 8 | Abril de 2002 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
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EDITORIAL
É inegável que, em sociedades dominadas pela informação, a leitura tem um papel preponderante.
E fenómeno extremamente curioso é o facto de, uma vez que tenhamos aprendido a reconhecer o significado dos símbolos gráficos que representam determinada linguagem (ou seja, quando aprendemos a ler determinada língua), a partir de então, mesmo que o queiramos, quando perante tais símbolos, já não conseguimos deixar de os ler, porque a leitura se processa de modo imediato e não consciente.
Houve, no entanto, épocas em que não era assim, nas quais o domínio da leitura e da escrita estava reservado apenas a determinados indivíduos, em algumas sociedades tidos como detentores de poderes mágicos, noutras respeitados como oficiais altamente qualificados. Em contrapartida, outras havia em que aqueles que sabiam ler e escrever eram com frequência escravos ou subalternos encarregados de tarefas administrativas consideradas menores. Neste número, vamos debruçar-nos um pouco sobre essa história...
Luís Afonso
luis@revista-temas.com
Esta edição da CONTACTO tem o apoio da Revista TEMAS
http://www.revista-temas.com/
Para quem gosta de conhecer...
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O APARECIMENTO DA ESCRITA Um processo evolutivo
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Segundo as descobertas arqueológicas feitas até ao presente, supõe-se que, das formas de arte conhecidas, as mais antigas terão sido a escultura, a gravura e, posteriormente, a pintura (rupestre), segundo se julga associadas ao despertar do sentido estético e a comportamentos rituais com uma forte componente simbólica.
Por seu turno, uma linguagem é, também ela, composta por um conjunto de representações simbólicas, convencionais e arbitrárias, tacitamente aceites e adoptadas pelos membros de uma determinada comunidade, representações essas que, no campo fonético, se designam por fonemas (sons) ou morfemas (combinações de fonemas para constituírem palavras que, por sua vez, também designam algo).
Mas, para além disso, existem ainda regras que determinam a ordem pela qual se agrupam as palavras para formar frases que sejam dotadas de coerência e permitam a cada indivíduo a interpretação e representação mental daquilo que significam, ou seja, para que a sequência de fonemas e morfemas faça sentido e para que esse sentido possa ser apercebido pelo receptor da mensagem é necessário o recurso a regras gramaticais que obedeçam a uma certa lógica conhecida por ambos.
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Bisonte estilizado descoberto em Altamira a progressiva estilização destas formas artísticas poderá ter estado na origem dos primeiros pictogramas e exemplo de inscrição em espiral.
A leitura, neste caso, era feita do centro para fora. Embora os caracteres sejam semelhantes aos do alfabeto fenício, a frase é grega.
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Em baixo, à esquerda:
Texto sumério reproduzido em escrita cuneiforme.
Em baixo, ao centro:
Escriba egípcio.
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A grafia e o aparecimento da escrita
o símbolo como representação do símbolo
Tudo começa então com o simbolismo, a atribuição de um significado a algo; no caso de uma linguagem verbal a um som ou a um conjunto de sons.
É inegável a importância dos símbolos na elaboração da linguagem e a relevância desta na coesão dos grupos sociais. E é de supor que a transposição da palavra oral para a escrita tenha consistido, no fundo, na criação de um outro tipo de símbolo, desta feita um símbolo gráfico (grafema), que representasse o que por si só era já um símbolo (ou seja, um fonema). Isto, naturalmente, no que se refere aos alfabetos fonéticos, os mais recentes em termos de sistemas de escrita, nos quais os grafemas representam sons (no caso, por exemplo, do alfabeto romano representam vogais e consoantes).
Mas temos também as escritas pictográfica e ideográfica, que se crê terem sido desenvolvidas anteriormente aos alfabetos fonéticos e, possivelmente, como sucessoras directas das primeiras formas de arte figurativa, e nas quais os símbolos gráficos não representam sons, mas sim o objecto em si, aquilo que se pretende designar, ou uma ideia abstracta e não o símbolo oral que lhe corresponde. É uma espécie de escrita «sem intermediários», na qual o objecto tem uma designação verbal e uma designação escrita independentes uma da outra e que, obviamente, podem ser relacionadas, mas de forma indirecta, pois ambas se referem ao mesmo objecto.
No que aos alfabetos fonéticos diz respeito, naturalmente que o emprego das mesmas regras gramaticais que enformam a linguagem falada está imediatamente assegurado, porquanto a linguagem escrita, nesses casos, mais não é do que a transposição gráfica da linguagem oral.
Já o mesmo não se passa com a escrita pictográfica e muito menos com a ideográfica. No caso da primeira não é forçoso conhecer-se o idioma de quem executou os pictogramas (símbolos gráficos) desde que se conheça o seu significado, se bem que nem sempre seja fácil ou possível interpretar correctamente a mensagem se não se conhecer, por exemplo, a sequência pela qual se devem ler esses pictogramas. Na escrita ideográfica, utilizada para registar informação mais elaborada, a questão complica-se, pois para além do problema da sequência de leitura acresce ainda o de cada símbolo (neste caso denominado ideograma) poder ter várias interpretações consoante os contextos em que se encontre inserido.
A finalidade da escrita
Alguns investigadores relacionam o aparecimento da escrita com o incremento das actividades comerciais a longa distância, depois de terem sido desenvolvidos os métodos de agricultura mista, geradores de excedentes alimentares que poderiam ser trocados por outros bens, nomeadamente os minérios de cobre e estanho necessários à então florescente indústria do bronze, e que tinham frequentemente de ser importados desde os respectivos locais de origem, por vezes longínquos. Tornou-se então necessário saber com exactidão onde se situavam esses pontos de abastecimento e quais as rotas a seguir para os alcançar, bem como se afigurou imprescindível a adopção de sistemas de pesos e medidas padronizados só possível com recurso à matemática, que implica também ela alguma forma de notação gráfica , e de registos organizados, mapas e cartas.
A escrita teria, pois, sido criada para responder a uma necessidade prática.
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Ao lado, à direita:
Escriba Romano. um papel importante, mas não prestigiado, no funcionamento administrativo de um vasto Império.
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Evolução das primeiras formas de escrita Breve panorâmica
Não é intenção deste trabalho tratar em pormenor dos vários tipos de escrita e simbologia gráfica que têm surgido ao longo da história da Humanidade, pois são inúmeros, e alguns estão ainda por decifrar.
Tratou-se, contudo, e como seria de esperar, de um lento processo evolutivo. Essa evolução ter-se-á dado, grosso modo, a partir de formas de escrita pictográfica (que não é mais, em termos de representação, que uma sequência de desenhos, estilizados em maior ou menor grau) para formas de escrita mais abstractas, nas quais o simbolismo atribuído aos signos gráficos representa já conceitos complexos e com diferentes significados, consoante estes se apresentem isolados ou combinados entre si, podendo o mesmo sinal inclusivamente ser lido de diferentes maneiras. Exemplo disso são os caracteres chineses, uma das mais antigas formas de escrita, que, devido à resistência prolongada da China a influências externas, nunca evoluiu para um sistema alfabético. Uma das dificuldades destes tipos de escrita reside no elevado número de símbolos que é necessário conhecer para se decifrar a mensagem (presentemente, «alguns» milhares de ideogramas são suficientes para o dia-a-dia).
Paralelamente surgiram os alfabetos exclusivamente fonéticos que, ao se reportarem directamente aos sons de determinada língua, permitem determinar com exactidão aquilo que significam, não se prestando, regra geral, a interpretações múltiplas. A linguagem transcrita torna-se assim mais rigorosa.
Os mais antigos precursores conhecidos do alfabeto romano, utilizado hoje em grande parte do Mundo, são de origem semítica e terão surgido há cerca de 3600 anos, na zona do Mediterrâneo Oriental. Contam um número variável de signos ou símbolos gráficos (as letras), que curiosamente de início só incluiam consoantes eram os chamados alfabetos consonânticos sendo as vogais acrescentadas pelo próprio leitor, à medida que ia lendo.
Entre os variadíssimos alfabetos fonéticos surgidos ao longo do tempo e em diversos lugares do Globo podemos encontrar exemplos nos quais a leitura se efectua em várias direcções e sentidos, quer na vertical, quer na horizontal, quer, por exemplo, em espiral, e que, consoante as línguas faladas pelos povos que os criaram, contam maior ou menor número de símbolos gráficos.
Para ilustrar este ponto, podemos citar um alfabeto cuneiforme (assim designado porque os sinais que o compõem eram gravados em argila com pequenos estiletes de madeira em forma de cunha) desenvolvido pelo povo de Ugarit, na actual Síria, há mais de 3000 anos, e que é composto por trinta letras e um sinal especial para separar as palavras umas das outras; no entanto, outros alfabetos cuneiformes existiam, que incluíam por vezes cerca de 800 sinais, o que, naturalmente, e tal como sucedia com as escritas pictográfica e ideográfica, era um factor limitativo da sua expansão.
Os alfabetos fonéticos possuiam, portanto, vantagens significativas. Primeiro que tudo, eram susceptíveis de grande simplificação no que se refere ao número de símbolos que os compunham, uma vez que com poucas dezenas de letras, isoladas ou combinadas entre si de várias maneiras, é possível reproduzir uma enorme quantidade de sons de cada língua (e isto é de fundamental importância na própria divulgação dessa forma de escrita, uma vez que se torna acessível a maior número de pessoas). Em segundo lugar, as letras não se prestam a interpretações dúbias, permitindo além disso que sejam seguidas as regras gramaticais da respectiva linguagem oral. Geralmente, como cada letra corresponde a um som (embora nem sempre, como, por exemplo o «e» em português), possui pois um significado preciso que se mantém inalterado seja qual for a sua posição dentro da palavra ou na estrutura da frase que integre. Isto permite a construção de mensagens precisas. Refira-se, contudo, que as próprias línguas são dinâmicas e acompanham o evoluir dos tempos. Logo, todas estas considerações de carácter geral terão obviamente excepções, devidamente assinaladas pelos especialistas.
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Em baixo:
Caracteres chineses gravados numa ripa de madeira com cerca de 2000 anos.
Apesar de diferirem dos que são usados actualmente, a mensagem ainda é compreensível.
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Em cima, à esquerda:
Uma «tagra», monograma usado pelos sultões turcos para representar o seu nome, e que constituía também a sua assinatura oficial.
Em cima, à direita:
A escrita Viaz, uma variante do alfabeto cirílico usado na Rússia do século XVII, na qual as letras surgem entrelaçadas.
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Bibliografia Consultada:
AFONSO, LUÍS
Simbolos, linguagem e comunicação visual gráfica Uma breve abordagem, transcrição parcial adaptada de trabalho académico, ISCSP, Lisboa, 1996. |
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A escrita dos «iniciados» como sinal de poder... e o reverso da medalha
Sendo a escrita, no fundo, uma forma de codificar informação, conhecer esse código (e ter a possibilidade de tirar partido dele) constituía uma importante vantagem relativamente aos demais, pois ter acesso ao saber reservado aos «iniciados» nessa forma de «ciência/magia/prodígio» representava poder.
Na Antiguidade, tal conhecimento, bem como, por exemplo, o domínio da matemática, fazia com que os escribas, sobretudo nas civilizações agrícolas e/ou mercantis, tivessem importantes funções na delimitação de terras, no controlo das quantidades de bens produzidos e transaccionados e sobretudo no cálculo dos impostos a fixar, sendo também eles habitualmente os responsáveis pela contabilidade. Por exemplo, na sociedade egípcia os escribas eram profissionais altamente considerados e que beneficiavam de importantes regalias, nomeadamente a isenção do pagamento de impostos.
Não só para manter o conhecimento de certas matérias reservado apenas aos detentores do poder pois desse conhecimento e da superstição que fomentavam acerca do seu «dom» para ler e escrever vinha muitas vezes a sua força mas também por questões de ordem prática, em certas civilizações desenvolveram-se simultaneamente outros tipos de notação gráfica mais acessíveis, sendo os mais elaborados destinados apenas a uma restrita élite. Recorrendo mais uma vez ao Antigo Egipto para ilustrar este ponto, verificamos que, para além da escrita hieroglífica uma forma de escrita sobretudo pictográfica (embora alguns hieróglifos representassem sons), criada há cerca de 5000 anos, e usada sobretudo em textos religiosos foram também criadas a escrita hierática e a demótica, mais rápidas de escrever e assim mais adequadas às cartas e contratos comerciais.
Dominar a escrita, para além do prestígio e posição social que conferia, significava também aceder a um repositório cada vez mais vasto do conhecimento humano (um clássico exemplo na própria Antiguidade foi a célebre Biblioteca de Alexandria).
Mas nem todas as civilizações encararam de igual modo quem sabia ler e escrever. Por exemplo, entre os Romanos, aos escribas se bem que indispensáveis para o funcionamento administrativo do vasto império , não era reconhecido o estatuto que detinham entre os Egípcios ou entre os povos mesopotâmicos, sendo muitos deles escravos de origem grega.
E assim sucederia daí em diante, através da História. O domínio da escrita nem sempre foi devidamente apreciado. Muitas vezes exaltado, outras temido ou reverenciado, foi também desprezado e considerado uma tarefa destinada aos subalternos. Vários exemplos disso poderiam aqui ser enumerados, mesmo em séculos bem recentes e entre povos considerados desenvolvidos.
Porém, saber ler permitia também o acesso a outras formas de pensar e sentir, aos ensinamentos e experiências alheias, ao saber de outros povos, ao génio de outros indivíduos, abrindo assim o caminho para a evolução (e por vezes revolução) das ideias e mentalidades. Precisamente por esse motivo, não surpreende a existência de alguns livros considerados «proibidos».
Talvez uma das maiores conquistas da Humanidade, a escrita acabaria assim por converter-se num instrumento de valor inestimável na partilha e preservação da cultura.
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(Pesquisa em inglês)
Tente os termos seguintes:
early writing; ancient symbols |
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