# 6 | Fevereiro de 2002 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
EDITORIAL

Muitas vezes, a pesquisa feita aquando da elaboração de um artigo, constitui, em si mesma, uma viagem de descoberta, já que também aqueles que a tal se dedicam vêem enriquecido o seu conhecimento, sobretudo quando se debruçam sobre temas acerca dos quais são menos versados. E talvez devesse ser sempre assim, pelo menos quando estamos a referir-nos a trabalhos de investigação e divulgação.

Foi precisamente o que sucedeu no caso do texto que desta feita publicamos. Tratando-se de um assunto usualmente pouco abordado, quisemos conhecer um pouco melhor a evolução da antiga arte dos vitrais. E o que encontrámos afigurou-se suficientemente interessante para que lhe dedicássemos mais que do que um artigo. Assim, da primeira parte dessa viagem, aqui deixamos conta, sempre esperando que aprecie...

Como habitualmente, aguardamos sugestões e comentários, através do endereço comments@revista-temas.com

E, já sabe!, se realmente gostar, avise os amigos. Se não gostar, avise na mesma. Talvez seja interessante para algum deles. Até à próxima!

Luís Afonso
luis@revista-temas.com

Esta edição da CONTACTO tem o apoio da Revista TEMAS
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Para quem gosta de conhecer...

A ARTE DO VITRAL NA BAIXA IDADE MÉDIA EUROPEIA

Texto:
Luís Afonso
Em baixo:
A face de Cristo na Abadia
de Lorsch, o mais antigo vitral figurativo conhecido
na Europa.
Se bem que o surgimento generalizado dos vitrais seja usualmente identificado com o Mundo Medieval, estando geograficamente circunscrito ao Ocidente Europeu, sobretudo à Inglaterra, à França e à Alemanha, e constituindo uma forma de expressão plástica quase que em exclusivo confinada à arte religiosa cristã, a sua proveniência pode ser traçada desde épocas bem mais remotas e a partir de outras paragens, nomeadamente do outro lado do Mediterrâneo.

Claro que, antes de nos referirmos ao vitral em si, teremos que abordar a origem do vidro como material fabricado intencionalmente, uma vez que existe também vidro de origem natural, sobretudo em regiões sujeitas a intensa actividade vulcânica (em termos grosseiros, o vidro é obtido a partir de uma mistura de areia, sais e cinzas, sujeita a temperaturas relativamente elevadas, condições que eventualmente ocorrerão, a dado momento, em praias situadas próximo de vulcões).

Considera-se hoje provável que o vidro tenha sido acidentalmente descoberto por oleiros mesopotâmios ou egípcios enquanto coziam as suas peças em barro. E, de facto, os exemplos mais antigos que se conhecem de vidro fabricado por mãos humanas são contas de colar egípcias, datadas de entre 2750 e 2625 a. C. Só passados mais de dois milénios e meio, já no primeiro século da era cristã, é que o uso de vidro nas janelas seria adoptado pelos Romanos, muito embora se tratasse ainda de vidraças pouco transparentes e com uma superfície bastante irregular.

Acima:
Maria, representada como rainha e mãe, num vitral da Catedral de Evreux (c. 1325).

Em cima, ao centro:
«A Virgem com o Menino». Vitral do século XII, numa das 176 janelas ornamentadas da Catedral de Nossa Senhora de Chartres, em França.

Em cima, à direita:
Também na Catedral de Chartres, vitral representando Carlos Magno e seus pares, parte da chamada Janela de Carlos Magno, oferecida pelos peleiros da cidade.

Descobriram-se também formas de dar cor ao vidro, recorrendo a óxidos de metais, e sabe-se da existência, em certos locais da bacia mediterrânica, de janelas ornamentais em alabastro às quais eram por vezes aplicadas peças em vidro colorido. Mas se há quem considere estes exemplos como podendo assinalar o início da arte do vitral, o certo é que existe no registo histórico um lapso de vários séculos até que surjam novamente indícios da sua utilização.

De facto, até pouco depois de cumprido o primeiro milénio da nossa Era, rareiam os vestígios de vitrais. Um dos mais antigos encontrados na Europa é composto por uma colecção de vidros de várias cores, descobertos em escavações no Mosteiro de São Paulo, fundado em Jarow, Inglaterra, no ano de 686. Mas este tipo de achados constitui uma excepção. Depois desse, o mais antigo vitral figurativo conhecido no Ocidente parece ser uma imagem de Cristo, pertencente à Abadia de Lorsch, na Alemanha, e datada já do século X tardio. Tal facto traduz, assim, um dos mistérios com que os historiadores se têm deparado ao tentarem estabelecer o percurso evolutivo desta arte, pois a vitralaria parece surgir, de forma aparentemente espontânea, agregada à arquitectura europeia por volta dos séculos X-XI, mas numa fase já madura, o que constitui natural motivo de perplexidade, pois não se conhecem períodos intermédios de desenvolvimento.


As grandes catedrais da Cristandade

Curiosamente, a grande expansão da arte do vitral surgiu marginalmente, como consequência da evolução arquitectónica na construção de catedrais, que teve lugar sensivelmente a partir de meados do século XII, numa transição que assinala a passagem do estilo românico para o gótico.

A arquitectura religiosa do período românico era dominada por construções maciças, com sólidas paredes em pedra, nas quais as janelas eram raras e de reduzidas dimensões, sendo os edifícios relativamente limitados em altura devido ao emprego dos arcos redondos romanos, o que tornava arriscado o assentamento de estruturas demasiado pesadas sobre as colunas que os suportavam. Sendo as paredes espessas e as janelas pequenas, não fazia sentido filtrar excessivamente a pouca luz que estas deixavam passar para o interior.

Quando começaram a vulgarizar-se os arcos em ponta, que facultavam uma melhor distribuição da tensão exercida sobre os pilares, não só isso permitiu que as grossas colunas românicas fossem substituídas por outras mais finas, possibilitando que os templos se apresentassem mais espaçosos, mas sobretudo permitiu aos arquitectos projectarem literalmente para o alto os seus devaneios mais fantásticos e grandiosos.

Resultado directo desta nova solução para a repartição do peso foi a possibilidade de as paredes entre colunas ligadas por arcos ogivais se converterem em superfícies de grandes dimensões, onde poderiam ser rasgadas altas janelas, por forma a iluminar o interior das catedrais, realçando assim a sua imponência. Daí à constatação de que tais aberturas constituíam igualmente amplas telas de luz, particularmente adequadas a serem preenchidas com vitrais, em coloridos tributos à glorificação divina, foi um passo natural.

Assim, enquanto que a escuridão no interior das igrejas românicas tinha de ser compensada por vistosas tapeçarias (penduradas como adorno de austeras e nuas paredes, também elas pintadas com cores claras), por estatuetas votivas revestidas a ouro, nas quais se reflectia a luz de sumptuosos candelabros, e por livros de culto ricamente iluminados, revestidos com encadernações gravadas em dourado e incrustadas com reluzentes jóias e pedras preciosas, a luminosidade das catedrais góticas foi aproveitada para tirar o melhor partido da arte do vitral, considerada um dos triunfos artísticos desse período.

Em cima, à esquerda,
«Águia e Leão», e ao centro, «Jonas», na Janela de Steinhövel, ambos vitrais da Igreja de S. Dionísio, em Speyer, Alemanha (1280).

Em cima, à direita:
«A flagelação de Cristo», na igreja franciscana alemã de Esslingen (1320).

O apogeu da vitralaria medieval

Para além dos conhecimentos técnicos necessários à fabricação do vidro, que era manufacturado segundo receitas que cada mestre mantinha ciosamente em segredo, e à montagem do vitral propriamente dito, os artistas pareciam possuir um conhecimento instintivo, talvez fruto da experiência, das potencialidades desta forma de arte tão peculiar, que deve entrar em linha de conta com as variações da intensidade luminosa ao longo do dia, manipulando-a deliberadamente a fim de acentuar os efeitos pretendidos. Podemos assim verificar que a escolha das cores para os vitrais a colocar nas paredes das igrejas não era feita ao acaso, mas sim tomando em consideração o movimento do sol nos céus do hemisfério norte, sendo as imagens de cores predominantemente frias colocadas nas paredes viradas a Oeste e a Norte, enquanto que aquelas que exibiam cores quentes, ornamentavam as janelas apontadas para Leste e para Sul.

O fabrico dos vitrais, sobretudo quando se recorria aos melhores artesãos, era dispendioso. Compreende-se, por isso, que o seu período de maior esplendor e pujança tenha coincidido com o da edificação das grandes catedrais góticas, patrocinadas com as riquezas do alto clero, de reis e de nobres, mas igualmente com as dádivas do próprio povo, quer se tratasse de simples mercadores ou de artífices agrupados em ligas.

Porém, o espírito generalizado da época mostrava-se de feição para tais empreendimentos. Por exemplo, entre 1170 e 1270, só em França, foram edificados mais de 500 templos em estilo gótico, havendo quem aponte como expoente máximo dessa arquitectura a Catedral de Nossa Senhora de Chartres. As povoações rivalizavam entre si na tentativa de erguerem uma catedral que suplantasse todas as demais. O orgulho de cada cidade era medido quase que ao decímetro pela altura que atingiam as cúpulas dos respectivos santuários.

Como é óbvio, custear tais obras consumia fortunas imensas. A Igreja vendia indulgências (o perdão dos pecados, a troco de um pagamento) e organizava procissões destinadas a exibir relíquias sagradas – muitas delas mandadas adquirir na Terra Santa por vários soberanos e bispos europeus –, às quais as populações assistiam, pagando para poder venerar esses ícones; e até mesmo alguns membros da nobreza chegavam a vender as suas jóias para angariarem mais recursos financeiros destinados a apoiarem as obras de construção. Enquanto isso, a Europa assistia igualmente ao despontar de novas ordens religiosas, carentes, também elas, de edificações próprias...

Para os vitralistas, todo este frenesim arquitectónico se traduziu num longo período de trabalho garantido e abundante. Era habitual tais obras monumentais levarem décadas a ficar concluídas, não raramente mantendo ocupadas gerações de artífices, o que levou ao estabelecimento de importantes oficinas de reputação internacional.

Acontecia também, uma vez o trabalho concluído, os artesãos que nele haviam participado deslocarem-se para outras paragens, em busca de novo estaleiro de construção. O volume de encomendas e a demanda de artistas competentes eram tais que surgiram os chamados estúdios itinerantes e, com eles, a dispersão geográfica de desenhos (pois os mestres transportavam consigo os seus esboços), estilos e técnicas de fabrico particulares, hoje reconhecíveis em catedrais distantes umas das outras, mesmo em diferentes países. Exemplos desse facto são as catedrais de Le Mans, Amiens e Beauvais, em cujos vitrais se reconhecem influências da escola de Paris-Chartres, o mesmo sucedendo com a catedral britânica de Canterbury, na qual se sabe que trabalharam artífices franceses. Também a vitralaria suíça foi influenciada pelo estilo gótico gaulês.

Já na Península Ibérica a arte do vitral teve de início uma expressão pouco acentuada. Crê-se que tal se terá verificado devido à presença muçulmana na quase totalidade do território durante boa parte a Idade Média, o que impunha limitações à edificação de catedrais cristãs. Ainda assim, podemos encontrar exemplos da influência francesa nos vitrais da Catedral de Toledo, bem como em algumas outras situadas nas províncias espanholas de Castela e Aragão.

Por seu turno, nos países mais próximos do centro da Europa, como a Alemanha, o vitral de estilo românico manteve-se durante mais tempo, sendo notáveis algumas janelas nas catedrais de Colónia e Estrasburgo. Também países como a Áustria e as actuais República Checa e Eslovaca acolheram tardiamente o gótico. Na própria Itália, um país mediterrânico, o chamado Estilo Gótico Internacional demorou a chegar, perdurando a influência germânica.


O declínio de uma arte singular

A transição para o Renascimento, prenuncia uma perda de prestígio da arte vitraleira, pois o trabalho em vidro não se presta às representações mais realistas que então começam a despontar na pintura.

Também com o progressivo desaparecimento das grandes encomendas de outros tempos (muitas igrejas nunca chegam a ser terminadas, por falta de dinheiro), a vitralaria passa para uma posição relativamente secundária. Os trabalhos desse período resumem-se praticamente a pequenos vitrais históricos ou heráldicos em edifícios públicos não religiosos, como câmaras municipais, e mesmo em casas particulares, onde representam os brasões de família.

Apesar de tudo, e nesse entretanto, novos países assumem protagonismo no trabalho de vitral. Foi o caso da Itália, onde este recebeu a atenção de pintores de renome, como Donatello ou Giotto. Do mesmo modo, artistas flamengos, como Van Eycks, influenciam o desenho de vitrais. Surgem obras de relevo um pouco por toda a Europa Ocidental, desde a Bélgica e Holanda, à Inglaterra ou à Península Ibérica, região para onde artesãos franceses, flamengos e italianos se transferem depois da Reconquista cristã. Mas os dias de verdadeira glória tinham já terminado, acentuando-se a decadência do ofício a partir de finais da Idade Média, devido principalmente a motivos de ordem religiosa e política.

A Igreja de Roma, que havia sido a principal patrona dos artífices, conhece divisões internas. O Protestantismo emergente mostra-se avesso à ostentação decorativa e às artes em geral, e a Contra-Reforma católica que se lhe segue, proclama igualmente a singeleza nos edifícios religiosos. Tais circunstâncias, às quais se podem acrescentar os efeitos económicos e sociais da Guerra dos Trinta Anos, levam à destruição de templos e de inúmeros vitrais (os que chegaram até hoje só escaparam à devastação porque se tornava muito caro substituir por vidros normais aqueles que tinham sido quebrados). Foi a miséria generalizada para as oficinas e mestres vitralistas.

A partir de então nunca mais a arte do vitral recuperaria na Europa o prestígio de outrora. Conheceram-se ainda efémeras tentativas de revitalização depois de as repúblicas filhas do pós-Revolução Francesa e do Iluminismo fazerem ressurgir o interesse por antiguidades do período clássico.

Mas as tentativas mais sérias para recuperar a vitralaria só viriam a surgir do outro lado do Atlântico, já no século XIX, porém num contexto completamente diverso daqueles em que nascera e atingira o seu apogeu.

Em baixo:
«O Anúncio à Virgem», em Hadzor, Worcestershire, Reino Unido (c. 1340).
Fontes Consultadas:

FREEMANTLE, ANNE
Age of Faith, Colecção Great Ages of Man, 5.ª edição em língua inglesa europeia, Time-Life Books, Inc., Amsterdam, 1983

Encyclopædia Britannica
CD 2000 De Luxe Edition
© 1994-2000 by Encyclopædia Britannica, Inc. and its licensors.

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