# 3 | Novembro de 2001 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
EDITORIAL

Nesta terceira edição da CONTACTO apresentamos um texto escrito por uma antropóloga cultural que, num dos números da Revista TEMAS – publicação de divulgação científica e cultural portuguesa –, colaborou com um interessante trabalho dedicado às divindades ligadas à água nas várias culturas ao longo dos tempos. O artigo que agora editamos é complementar desse estudo, e debruça-se mais concretamente sobre os vestígios bem nítidos desse fenómeno que ainda hoje é possível encontrar em algumas festividades religiosas populares portuguesas.

Uma vez mais esperamos que goste e que nos faça chegar a sua opinião, com sugestões e comentários, através do endereço comments@revista-temas.com

E, já sabe!, se realmente gostar, avise os amigos. Se não gostar, avise na mesma. Talvez seja interessante para algum deles. Até à próxima!

Luís Afonso
luis@revista-temas.com
http://www.revista-temas.com/

Para quem gosta de conhecer...

A IMPORTÂNCIA DA ÁGUA EM PORTUGAL
E NAS FESTAS DO POVO

Texto:
Cláudia Pires
(Antropóloga)

Pinturas:
Carlos Alberto Santos
É sabido que nos relatos dos factos passados, o lendário anda sempre associado ao histórico ou, por outras palavras, a lenda completa a própria História.

Em Portugal são numerosas as lendas que associam a água ao princípio feminino. A Lenda da Moira é apenas um exemplo de entre muitos que poderiam ser aqui dados.

Qual resto de um animismo primitivo, ela remonta ao tempo em que a Península Ibérica, território cobiçado pelos Moiros (povos de origem árabe), era palco de violentas batalhas entre estes últimos e os Cristãos (séculos VIII-XV).

Destes tempos idos, a tradição oral encarregou-se de fazer chegar até aos nossos dias a lenda de uma linda princesa moira que, apartada do seu amor, se entregaria às mágoas da angústia e da solidão, chorando sempre, sempre, dia e noite, pelo seu perdido amor. E porque morrera de amor, as suas lágrimas encantadas transformaram-se em Fonte (Fonte Encantada).

São sem conta as lendas que têm por protagonista principal uma princesa moira, tanto no norte do país como no sul, Algarve, último reduto da presença árabe.

Parte do quadro
«A Batalha de Guadibeca», retratando um dos episódios
da história portuguesa
entre
as forças cristãs
e os exércitos mouros.

Um Messias... no Feminino

Os cultos a divindades femininas são comuns a todos os povos do Mediterrâneo, bem assim como o foram, em outros tempos, aos Judeus da Diáspora.

No contexto lusitano, os mitos das aparições tornaram-se notórios a partir das viagens marítimas e fluviais. De carácter semita, estes tipos de cultos revelaram-se como uma esperança messiânica e retratavam a aparecimento de uma Senhora a todos os aflitos (marinheiros, pescadores, fugitivos, etc.).

Era à «Senhora da Terra» que os navegantes, quando partiam para o mar, as suas almas encomendavam, faziam promessas de uma vela ofertar se não tivessem a água como a sua sepultura, e a quem os náufragos se apegavam quando os navios naufragavam e se despedaçavam.

E na volta, vencidas as jornadas trágicas pelos desertos de água, cumpriam a promessa.

Este tipo de cultos esteve na origem da construção de capelas junto da mesma água que os trouxe (na costa, ou a alguns escassos quilómetros desta). Aí veneram a Imagem d'Aquela que suas vidas conservou.

Feitas padroeiras dos viajantes, muitas destas Senhoras passaram a ser chamadas de Senhora da Guia, por associação ao astro Vénus (herança romana), facilmente identificado pelo seu grande brilho. Popularmente, é também conhecido como Estrela da Manhã, já que o seu brilho anuncia o Sol, e da Tarde, altura em que deixa de se poder observar por se encontrar demasiado próximo do Sol, passando então a ser visto como estrela anunciadora da noite.

Na base da sobrevivência dos discursos sobre as aparições de um messias feminino encontramos o problema da própria sobrevivência do homem, pois foi através de uma elaboração colectiva de mitos, enquanto vínculos a um passado, que o homem encontrou uma forma de se legitimar no presente a um determinado contexto cultural.

Bibliografia Consultada:

ESPÍRITO SANTO, MOISÉS,
Origens orientais da Religião Popular Portuguesa, Ensaio sobre a toponímia antiga, Assírio & Alvim, Lisboa, 1988.

Almanaque
– Direcção-Geral de Apoio e Extensão Educativa, Editorial do Ministério da Educação, Lisboa, 1988.

Enciclopédia Temática Portugal Moderno – «Tradições» – Vol. VI, Pomo – Edições Portugal Moderno, Lda. Lisboa, 1993
As águas que guardam Santas

Há alguns séculos atrás a figura de Santa Iria andava envolta em mistério. De acordo com a lenda, a existência da bela Iria, nascida em plena Serra de Aire, teria decorrido alguns séculos antes de Portugal nascer.

Era rica (os seus pais eram os senhores de Nabância, uma antiga cidade romana situada onde hoje se encontra Tomar), formosa e, desde logo, por ela se apaixonou loucamente o soldado Britaldo. Todavia, ela não correspondeu ao seu amor e porque sentia que Deus a «chamava» resolveu entrar para um convento.

Os anos foram passando e as mentiras do povo aumentando e, num momento de maior ciúme Britaldo degolaria a sua amada junto do rio Nabão, em cujas águas depositaria o corpo.

No convento, as freiras beneditinas procuravam dia e noite a sua companheira ausente. Perscrutaram as águas do Nabão, as margens do Zêzere e, já em desespero de causa, foi às águas caudalosas do Tejo que perguntaram por Iria. Mas o milagre teria lugar junto de Santarém, onde as águas ao se apartarem deixaram antever ao fundo o corpo de Iria, no interior de um túmulo de mármore, trabalhado pelas mãos dos anjos.

De imediato as freiras se precipitaram para recolher o corpo da Santa mas, no mesmo instante, a corrente uniu-se, resguardando-o.

E, em paz, as freiras regressaram a Nabância, na convicção de que uma grande Santa era cuidadosamente guardada pelas águas do Tejo.

A existência de terras portuguesas em que aparece o nome de Iria é revelador de como desde muito cedo se espalhou o culto desta Santa. O topónimo Santarém parece derivar de Santa Irena, nome ainda mais antigo do que Iria.

Uma outra tradição conta a história de uma Senhora que havia surgido das ondas do mar: a Senhora Aparecida. A imagem desta Virgem foi venerada na igreja do convento de S. João de Deus, em Lisboa, até ao seu desaparecimento.

Do outro lado do Atlântico, em meados do século XVIII, uma imagem da Virgem é «pescada» nos mares de Paraíba (Brasil). Esta Virgem que surgiu das ondas é recordada nos versos de alguns poetas e do povo como sendo a mesma imagem outrora venerada em Lisboa.

A Senhora Aparecida – protectora dos navegantes – ainda hoje é a padroeira do povo brasileiro.

Em terrenos portugueses, a Senhora e a água constituem um elemento só. Matéria-prima simbólica para o seu culto, a água é confundida com o próprio princípio feminino.

São também de registar as águas termais, associadas a esse mesmo princípio. Locais de culto popular, grande parte destas merecem, de igual modo, atributos medicinais.

A este respeito podemos destacar como exemplo o santuário-termas da Senhora dos Banhos, em Anadia, cuja iniciativa é, acima de tudo, popular e feminina.

À Capela da Senhora dos Banhos todos os anos afluem romeiros, que aí cumprem o ritual dos banhos e rezam à Virgem Maria.

Mas em Portugal também encontramos uma concepção masculina da água, e a prová-la aí estão os devotos de S. Cristóvão, o grande advogado dos barqueiros.

No Alto Minho são poucas as igrejas matrizes que não tenham um S. Cristóvão, possante, de bigode e barba cerrada, túnica escarlate e grandes folhos de renda ao pescoço. Descalço, empunha na mão direita uma vara de barqueiro e no ombro esquerdo exibe a figura de um menino.

A lenda deste patrono dos barqueiros conta que, um dia, andava Cristóvão na praia quando foi interpelado por um menino que lhe pediu que o transportasse na sua barca para a outra margem do rio. Estando esta precisada de uns arranjos, Cristóvão deitou mãos ao trabalho mas, quanto mais a consertava, mais a barca se lhe desconsertava. Nisto, o miúdo pediu ao barqueiro que o levasse ao ombro. Assim foi, de criança ao ombro, fez-se ao rio, atravessando-o a pé. Mas o menino a tal ponto lhe pesava, vergando-o, que chegados à outra margem, o barqueiro indignado, retorquiu que lhe parecia ter trazido o Mundo todo ao ombro. E, palavras não eram ditas, o menino desapareceu misteriosamente.

De regresso, qual não foi o seu espanto ao vislumbrar o prémio do seu sacrifício: a sua barca estava nova e mais linda do que nunca.

De acordo com alguns investigadores, a mesma concepção é também identificada a partir de certos nomes de rios portugueses que, ao que tudo indica, parecem derivar do nome do deus fenício Thamuze, um nome sagrado que significa «Senhor». São eles os rios
Tejo, conhecido por Tagos no tempo de Estrabão, e que aquando da passagem
da língua semita para a latina sofreu a elisão da sílaba central Tha(mu)gos; Tâmega [Tamige <– Thamuze], a personificação do deus da vegetação; Mondego, que deriva de Thamugos [Tamugos –> Tamangos –> Montagos –> Monteco] e, finalmente, o rio d'Anços, de
Dam(u)sus, que significa «Senhor».

Convém, entrementes, referir que a água e o seu poder medicinal têm origem em preceitos bem mais antigos de culto. Senão, lembremo-nos do episódio bíblico em que Cristo curou um paralítico numa piscina chamada, em hebraico, Bezatha ou Bethsaida.

De acordo com o relato do evangelista São João, nas colunas desta piscina jazia um grande número de enfermos que aguardavam a descida do Anjo do Senhor que, de tempos em tempos, vinha agitar as águas da piscina. O relato segue referindo que, uma vez revolvidas as águas, o primeiro que nela entrasse ficava imediatamente curado, qualquer que fosse o mal que o atormentasse.

Foi junto a um dos cinco pórticos desta piscina existente em Jerusalém que Cristo curou um paralítico que aí permanecia prostrado havia trinta e oito anos pois não tinha forças para se lançar à água quando esta começava a agitar-se, nem, tão-pouco, alguém que o lançasse.

Na origem deste culto reside a figura de Cristo, na pele do Divino Médico.

Uma outra paragem de culto digna de referência em Portugal, e em quase tudo semelhante à piscina de Jerusalém, é aquela que em tempos existiu em Óbidos. A propósito desta, Frei Agostinho contaria: «Tendo aí aparecido Nossa Senhora a uma pastorinha, rebentou logo uma fonte milagrosa. Fizeram um tanque ou piscina, e todos os que nela entram ficam sãos, não uma vez no ano (como em Bethsaida) mas a todas as horas, e aqui não é necessário que um Anjo venha remover as águas, como em Jerusalém; basta a fé dos que nela entram. Maria é a piscina dos seus filhos; a ela acorrem leprosos e sarnosos que deixam a roupa pendurada no interior da capela. A Senhora tinha muitas casas para albergar os peregrinos que aí iam em muitos círios».


A simbologia da água no plano da festa

No contexto das festividades populares, o valor simbólico da água nas celebrações de S. João supõe uma ligação directa com a evocação deste santo nos textos bíblicos.

Foi nas águas do rio Jordão que João mergulhou Jesus e o baptizou. E porque repetia este ritual a quem lhe pedia para ser baptizado, era chamado de João Baptista.

E se hoje os tempos são outros, a verdade é que as pessoas continuam a aderir aos festejos do dia de 24 de Junho e a acreditar que a água (seja ela do mar, dos rios, das fontes, ou ainda, do orvalho) deste dia é bendita.

Não admira pois que, a par de uma data determinada e repetida no calendário das festas, encontremos uma mão cheia de rituais que tornam bastante clara a dimensão deste evento no calendário festivo.

Durante este dia, à água são atribuídos poderes curativos e propriedades divinatórias, particularidades próprias deste dia concreto e que não se repetem no resto do ano.

A água, o alho-porro, o manjerico, a erva cidreira e o fogo são os elementos nobres utilizados nas práticas e rituais da tradição sanjoanina.


As «Sortes» na Noite de S. João

Não há quem resista, nesta noite dos amores e das cantigas, a valer-se das práticas divinatórias para saber o que o futuro lhe reserva.

Assim, a «receita» para a felicidade manda que se compre no dia de S. João, pela madrugada, a erva da fortuna (também chamada erva de Nossa Senhora) e a pendure em casa. Se a erva se cobrir de verdura, tal é sinal de felicidade à porta.

E como a tradição mantém fortes raízes na alma do povo, que elege esta noite das orvalhadas a preferida de entre as noites de todo o ano, é costume entre os casadoiros colocarem numa taça com água a apanhar o orvalho da noite papelinhos dobrados, cada um com o nome de um pretendente. Reza a tradição que, na manhã seguinte, o papelinho que se apresentar mais aberto é o do futuro cônjuge.

Semelhante poder divinatório atribuído à água nesta noite do coração é o praticado através dos bochechos de água. Neste caso, as «sortes» de amor são lançadas do seguinte modo: toma-se de uma vez na boca uma pequena quantidade de água que a seguir se lança de uma janela; a sorte «assegura» que o primeiro nome que se ouve uma vez lançado o bochecho é o da pessoa com quem se casará.

Para o mesmo efeito, há ainda quem opte por saltar a uma fogueira, ao invés de lançar o bochecho por uma janela.

Água, Fogo e Ervas: eis a trilogia que se sente na noite de S. João, o eterno profeta afamado pelo povo de casamenteiro.

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