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# 2 | Outubro de 2001 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
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EDITORIAL
O estudo das civilizações antigas e seus feitos representa sempre uma oportunidade de nos maravilharmos com descobertas fascinantes. E neste segundo número da CONTACTO deparámos com uma dessas descobertas. Não que tenhamos sido nós a revelá-la, mas sim porque ao tomarmos conhecimento daquilo que os povos de outras eras conseguiram alcançar, dispondo apenas de tecnologias rudimentares, ficámos surpreendidos, pois não pudemos deixar de pensar no que tal façanha representa em termos de visão de futuro por parte dos seus criadores, de vidas inteiras de trabalho, e de décadas, por vezes séculos, transcorridos até à conclusão das tarefas. Neste caso trata-se de um conjunto de milhares de figuras budistas, perto de um templo, esculpidas nas paredes rochosas de penhascos e grutas, um dos muitos exemplos desta forma de arte religiosa rupestre que se popularizaram na China antiga.
Podemos sempre pensar que na época em que tais empreendimentos eram idealizados e postos em prática o ritmo do dia-a-dia era diferente e que o sentido de urgência na sua conclusão seria também entendido de outro modo. Porém, aquilo que nos deixou sem palavras foi, pura e simplesmente, a esmagadora dimensão do número de esculturas. Mas não nos adiantemos mais. Simplesmente leia, e imagine...
Uma vez mais esperamos que goste e que nos faça chegar a sua opinião, com sugestões e comentários, através do endereço comments@revista-temas.com
E, já sabe!, se realmente gostar, avise os amigos. Se não gostar, avise na mesma. Talvez seja interessante para algum deles. Até à próxima!
Luís Afonso
luis@revista-temas.com
http://www.revista-temas.com/
Para quem gosta de conhecer...
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AS ESCULTURAS EM ROCHA
DO TEMPLO DE SHENGSHOU, EM BAODING CHINA
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Texto:
Luís Afonso
Fotos:
Isabel Cambezes |
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Na província chinesa de Sichuan, a nordeste da cidade de Dazu, ergue-se, na colina de Baoding, um templo budista do século XII: é o Templo de Shengshou.
A sua fundação remonta a 1178/9, sendo atribuída a Zhao Zhi Feng, um monge adepto de uma seita secreta de Budismo Tântrico.
O local escolhido para edificar o retiro monástico é considerado como uma das quatro montanhas mais sagradas da China, significando a expressão Baoding Shan algo como «Montanha Preciosa».
Naturalmente que o templo em si mesmo é importante em termos de actividade religiosa regular. E tem ainda como outras funções, por exemplo, proteger relíquias valiosas da cultura budista, empreender estudos relativos ao Budismo, e dar acolhimento a encontros e actividades tanto nacionais como a nível internacional.
Mas Shengshou destaca-se igualmente devido ao espectacular conjunto de figuras esculpidas na rocha dos penhascos sobre os quais se elevam os edifícios monásticos. Conjuntamente com um outro núcleo em Beishan (ou «Montanha do Norte»), também situado nas imediações de Dazu, as imagens de Baoding fazem parte de um vasto grupo de esculturas e inscrições, escavadas em rochedos e nas paredes de grutas.
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A grande estátua
do Buda Adormecido,
a principal figura
das Grutas de Baoding.
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No total, as figuras encontradas na região de Dazu ultrapassam as 60.000, dispersas por mais de 100 locais diferentes, dos quais Beishan e Baoding são os mais representativos. Comparando-os entre si, torna-se evidente a evolução dos distintos estilos artísticos que aí se podem reconhecer, já que a execução das estátuas se estendeu ao longo de séculos, abrangendo várias dinastias de governantes e reflectindo a sensibilidade artística das épocas em que foram criadas.
Enquanto que as esculturas de Beishan começaram a ser esculpidas a partir de 618, sob a dinastia T'ang, prolongando-se depois enquanto governaram as chamadas Cinco Dinastias (907-960), e tendo sido concluídas durante a Dinastia Song (960-1279), as inscrições e figuras de Baoding datam apenas da época da Dinastia Song do Sul, julgando-se que foram realizadas entre 1179 e 1249, revelando-se, por isso, mais interessantes que as de Beishan e constituindo, por assim dizer, uma cronologia do período mais tardio da arte rupestre chinesa. As representações humanas surgem mais elegantes e proporcionadas, ao mesmo tempo que exibem uma notável riqueza no trajar e retratam um variado leque de actividades.
O recinto de Baoding
O Templo principal de Shengshou ergue-se sobre rochedos, junto a um ribeiro de montanha. Seria precisamente aproveitando as paredes desses penhascos em forma de meia lua que Zhao Zhi Feng faria esculpir mais de 10.000 figuras, tanto de deuses e demónios como de personagens reais.
A escultura dominante de todo o conjunto semicircular situa-se precisamente a meio da curva, e é uma imagem de Buda, reclinado e prestes a entrar no estado de nirvana. Por vezes chamada de «Buda Adormecido», a estátua escavada na parede rochosa representa Siddharta Gautama deitado, exibindo uma expressão de serenidade. Com cerca de 31 metros de comprimento e 5 de altura é a maior de todo o recinto.
Por oposição ao que sucedia em Beishan, onde as figuras iam sendo acrescentadas aleatoriamente, transparece na disposição das esculturas de Baoding uma intenção prévia de harmonizar todo o conjunto, enquadrando-o de forma a aproveitar as características naturais do local, como sucede, por exemplo, com uma estátua perto do Buda reclinado, que aproveita a água de um pequeno riacho subterrâneo.
Para além do Buda principal, outra das curiosidades mais interessantes em Baoding é um pequeno santuário, também escavado nas paredes do penhasco, chamado o Templo da Deusa da Misericórdia, onde deparamos com um impressionante conjunto de dedos dourados, que mais se assemelha a uma floresta em miniatura. São 1007 mãos, cada uma delas com um olho, símbolo da sabedoria.
Mas existem também no local todas as restantes esculturas algumas que chegam a atingir os 8 metros de altura, enquanto que outras não ultrapassam alguns centímetros abrangendo uma enorme galeria de personagens, desde os ícones religiosos, até mestres, sábios, figuras históricas e ainda muitas anónimas, em realistas cenas do quotidiano que, pela riqueza de pormenor revelada, têm servido aos historiadores como auxiliares preciosos no estudo da cultura e modo de vida daquela região, característicos de eras passadas.
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Bibliografia Consultada:
SCHAFER, EDWARD H.,
Ancient China, Colecção Great Ages of Man, 11.ª edição em língua inglesa europeia,Time-Life Books, s/ local, 1980. |
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Os muitos Budas que surgem na arte rupestre chinesa não representam necessariamente o Buda original, a personagem histórica de Siddharta Gautama, nascida nas montanhas do que é hoje o Nepal, e que viveu posteriormente na Índia, entre os séculos VI e V a. C. Os ensinamentos daquele que ficou conhecido como o «Iluminado» só foram introduzidos na China cerca de quinhentos anos após o seu desaparecimento, por missionários indianos que percorriam as rotas mercantis. Encarado mais como um guia espiritual e um exemplo a seguir do que propriamente como uma divindade a idolatrar, a intenção dos fiéis orientava-se mais para a adopção pessoal do mesmo tipo de comportamento, com vista a atingir idênticos fins.
E a par das novas doutrinas chegava também o costume de erguer estátuas budistas em grutas. Essa tradição perduraria durante séculos, tendo atingido o seu apogeu na época da Dinastia T'ang.
Porém, a forma de budismo que subsistiu na China diferia da que era praticada na Índia. Se bem que as convulsões políticas e sociais então vividas se traduzissem também em carências espirituais que tornavam as massas populares receptivas a acolherem novos credos, a cultura chinesa era já antiga e estava bem enraizada, pelo que a mensagem dos budistas acabaria inevitavelmente por se ver confrontada com as religiões tradicionais do folclore local, bem como com o Taoismo e com os princípios confucionistas de conduta social.
Todas estas influências iriam, como não poderia deixar de ser, reflectir-se na arte religiosa do budismo chinês, surgindo-nos assim representadas figuras que não faziam parte do panteão budista indiano.
De qualquer forma, a recém-chegada doutrina encontraria numerosos adeptos, nomeadamente entre os membros da classe dirigente e no seio das famílias abastadas, que se predispunham a assegurar uma promissora existência além-túmulo financiando a escultura em rocha, material perene, de milhares de imagens devotas.
Algumas dessas figuras que mais sobressaem são os «Bodhisattvas», por vezes chamados de «Budas em potencial» ou «quase-Budas», tidos como personagens semidivinos, que optam por adiar a sua própria libertação do ciclo de nascimento, morte e reencarnação, com a finalidade de auxiliarem os homens a encontrarem o verdadeiro caminho para a iluminação.
Consequências da passagem dos tempos
Dada a permanente exposição aos elementos, nomeadamente às chuvas e aos ventos, durante vários séculos, são bem patentes em muitas das estátuas de Baoding os estragos provocados pela erosão e, sobretudo, a descoloração das sucessivas camadas de tinta, já que as figuras se apresentavam outrora pintadas de cores vivas. Conta-se também que, por pouco, não foram destruídas por Guardas Vermelhos, durante a Revolução Cultural chinesa em meados do século XX, o que só não chegou a acontecer devido a uma mensagem urgente, recebida no último momento, com ordens em contrário.
Esse período histórico passou. Contudo, as agressões ambientais permanecem, até porque o Templo de Shengshou e as Grutas de Dazu tornaram-se entretanto parte de roteiros turísticos. Assim, a grande incógnita hoje é: até quando conseguirão as esculturas de Baoding resistir à passagem dos tempos?...
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