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# 15 | Julho de 2004 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
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EDITORIAL
As preocupações ambientais fazem também parte do domínio da Ciência. Por esse motivo, e pela primeira vez, publicamos nesta edição da CONTACTO parte de um trabalho de uma terceira entidade dedicado a essa matéria. Trata-se de um texto preparado pelo World Wide Fund for Nature (Fundo Mundial para a Protecção da Natureza a maior organização mundial dedicada à conservação do Ambiente) sobre alguns efeitos das alterações sobre o clima que se verificam a nível mundial, efeitos esses que são detectados de várias formas, nomeadamente quando se procede ao estudo dos glaciares. O rápido desaparecimento destes representa um sinal de alarme, pelo que os dados aqui apresentados se prestam a que reflictamos com alguma demora sobre o seu significado.
O texto original, mais completo, pode ser encontrado no Web Site do WWF, cujo endereço se encontra na nossa página de links seleccionados, onde, de resto, indicamos muitas outras páginas que consideramos interessantes.
Luís Afonso
luis@revista-temas.com
Esta edição da CONTACTO tem o apoio da Revista TEMAS
http://www.revista-temas.com/
Para quem gosta de conhecer...
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ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E DECLÍNIO GLOBAL DOS GLACIARES
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| Desde o início da década de 1960 os glaciares de montanha, em todo o Mundo, sofreram uma perda de volume estimada em mais de 4000 quilómetros cúbicos de água superior à descarga anual dos rios Orinoco, Congo, Yangtzé e Mississipi todos juntos. Esta perda foi duas vezes mais rápida durante a década de 1990 do que nas décadas anteriores.
Medir o desaparecimento dos glaciares
A medida mais rigorosa da alteração dos glaciares é o balanço de massa, a diferença entre a acumulação (a massa acrescida sob a forma de neve) e a ablação (a perda de massa devida à fusão ou ao desprendimento de grandes blocos de gelo). Mesmo que a precipitação aumente, o balanço de massa pode reduzir-se se temperaturas mais elevadas fizerem com que a precipitação caia sob a forma de chuva em vez de neve. A alteração de massa é expressa como a perda de metros cúbicos de água, ou como a espessura média de toda a área do glaciar. Uma vez que as mudanças de massa são difíceis de medir, o recuo dos glaciares é mais frequentemente descrito como uma perda de área do glaciar, ou como a distância que a frente (o término) do glaciar retrocedeu.
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Em cima, à esquerda:
Glaciares e riacho, no Vale de Cogne, Parque Nacional Gran Paradiso, em Itália.
(Foto: WWF-Canon / Michele Depraz).
Em cima, à direita:
O Glaciar Perito Moreno, no Parque Nacional Los Glaciares, na Argentina, classificado como Património Mundial pela UNESCO.
(Foto: WWF-Canon / Michel Gunther).
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Em baixo:
Recifes de coral nas Ilhas Fiji. Alimentados por correntes ricas em nutrientes, estes locais albergam milhares de espécies, mas encontram-se ameaçados pela subida do nível do mar motivada pela fusão dos gelos.
(Foto: WWF-Canon / Cat Holloway). |
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Perdas de habitat
Enquanto que muitas espécies serão provavelmente afectadas por alterações nos fluxos das correntes e no nível dos mares associadas à fusão dos glaciares, os animais que vivem neles ou nas suas proximidades podem ser levados à extinção pelo desaparecimento dos seus habitats gelados. Longe de serem estéreis vastidões de gelo, os glaciares albergam alguns dos mais raros organismos e ecossistemas da Terra.
Por exemplo, o minúsculo verme do gelo passa a sua vida inteira no gelo, deambulando por entre os glaciares à noite, alimentando-se de algas glaciais e sendo ocasionalmente apanhado por uma cotovia das neves esfomeada. A adaptação fisiológica que permite a estes vermes sobreviverem a 0º C permanece desconhecida e, uma vez que estes se desintegram a temperaturas superiores a 5º C, o seu segredo poderá ficar perdido à medida que a temperatura sobe e o seu habitat glacial se vai derretendo.
As alterações do clima levaram já à perda de um ecossistema inteiro nos quebradiços bancos de gelo do Árctico. Entre 2000 e 2002, o Banco de Gelo Ward Hunt ao largo da Ilha Ellesmere, no Canadá, partiu-se em dois, deixando escoar muita da água do Fiorde Disraeli, o último lago rodeado por gelo que restava no Hemisfério Norte. Este lago com 3000 anos mantinha um ecossistema raro, no qual organismos marinhos microscópicos perto do fundo do lago viviam em harmonia com os seus parentes de água doce das salobras águas superficiais. Em 2002, já se tinham perdido 96% deste habitat único de baixa salinidade.
Mesmo os animais que não vivem directamente nos glaciares podem ser seriamente afectados pelo desaparecimento destes. O Brachyramphus brevirostris, por exemplo, é uma pequena ave de mergulho que procura comida quase que exclusivamente em áreas onde a água do degelo proveniente dos glaciares chega aos oceanos. Esta ave encontra-se já em sérios apuros; pensa-se que a sua população global (situada sobretudo no Alasca) decaiu de várias centenas de milhar em 1972 para menos de 20.000 no começo da década de 1990. Vários grupos conservacionistas preencheram uma petição para que o Brachyramphus brevirostris fosse declarado como espécie ameaçada, mencionando as alterações do clima e a perda de habitats críticos associados a glaciares como sendo das principais razões para o declínio da espécie.
Mesmo encontrando-se bastante longe dos glaciares em fusão, os recifes de coral serão afectados pela subida do nível do mar. Os corais necessitam de luz para a fotossíntese, que lhes permite sobreviverem. A profundidade a que os corais podem viver encontra-se assim limitada pela profundidade a que a luz consegue penetrar na água. Quando a luz diminuir, à medida que o nível do mar for subindo, os corais que vivem a essa profundidade limitada pela luz perder-se-ão. De igual forma, as taxas de crescimento dos recifes de coral que se encontrem a outras profundidades reduzir-se-ão, conforme se altere a qualidade de luz à medida que o nível do mar vá subindo. Isto tem consequências, não apenas para os corais e para a vida marinha, mas também para as comunidades humanas que dependem desses recifes para subsistir.
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Contaminantes
Muito embora os poluentes orgânicos persistentes (POPs) tais como os PCBs e o DDT se encontrem hoje banidos em larga escala, eles foram extensivamente utilizados em meados do século passado. Estes poluentes de longa vida são transportados pelo ar a partir da sua origem até áreas mais frias, onde se condensam e se depositam no gelo dos glaciares. Até muito recentemente, estes componentes tinham permanecido presos no gelo, mas a rápida fusão começou a libertá-los novamente para o meio ambiente. Por exemplo, num lago canadiano, a água proveniente da fusão dos glaciares é responsável por 50 a 97% dos vários POPs que se depositam no lago. Pelo menos 10% desta água provêm de gelo que foi depositado entre as décadas de 1950 e 1970, conforme revela a presença de trítio, um subproduto de testes com bombas nucleares efectuados durante este período.
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O Árctico
De uma forma geral, nas décadas mais recentes os glaciares do Árctico ficaram mais pequenos, com excepção da Escandinávia e da Islândia, onde o aumento de precipitação resultou num balanço positivo. A fusão do Árctico parece ter-se acelerado no final dos anos 90; as estimativas da fusão anual combinada subiram de 100 km2 por ano em 1980-89 para 320 km2 em 1997 e 540 km2 em 1998. Só a Gronelândia contém 12% do gelo do mundo. Enquanto que partes do seu interior estão a ganhar massa, verificou-se um adelgaçamento significativo e perda de gelo na periferia. Esta perda não é apenas devida à fusão nas orlas; partes inteiras do lençol de gelo da Gronelândia parecem estar a deslizar em direcção ao mar. Como este deslizamento acelera quando a fusão à superfície é mais intensa, crê-se que a água resultante da fusão à superfície pode estar a infiltrar-se até ao leito glaciar e a lubrificar o movimento dos lençóis de gelo. Esta descoberta recente fornece um mecanismo para a rápida resposta dos lençóis de gelo às alterações do clima, um processo que anteriormente se acreditava necessitar de centenas ou milhares de anos.
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América do Norte
Os glaciares nas Montanhas Rochosas e nas Cordilheiras Costeiras Ocidentais sofreram perdas consideráveis durante o último século, e a fusão está a acelerar rapidamente no sul do Alasca. Desde que o Glacier National Park (Montana, EUA) foi criado, em 1910, mais de dois terços dos seus glaciares e cerca de 75% da área coberta por glaciares desapareceram; se a actual velocidade de aquecimento continuar, deixará de haver glaciares no Parque por volta de 2030. Nos Parques Nacionais de Banff, Jasper e Yoho, nas Rochosas Canadianas, a cobertura de glaciares decresceu em pelo menos 25% durante o século XX. O Glaciar South Cascade, na região costeira de Washington (EUA) perdeu 19 m de espessura de gelo entre 1976 e 1995, dez vezes mais do que durante os 18 anos anteriores. Quase todos os glaciares vigiados no Alasca estão a derreter-se, e as taxas de adelgaçamento nos últimos 5-7 anos são mais do dobro daquelas que se verificaram nas décadas anteriores.
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AMÉRICA DO SUL
Os Andes setentrionais contêm a maior concentração de glaciares dos trópicos, mas estes glaciares estão a retroceder rapidamente e as perdas aceleraram-se durante a década de 1990. No Peru, o Glaciar Yanamarey perdeu um quarto da sua área no decurso dos últimos cinquenta anos, e os Glaciares Uruashraju e Broggi perderam 40 a 50% da sua extensão entre 1948 e 1990. No Equador, o Glaciar Antizana encolheu 7 a 8 vezes mais rapidamente durante os anos 90 do que nas décadas anteriores. Do mesmo modo, o Glaciar Chacaltaya (na Bolívia) perdeu quase metade da sua área e dois terços do seu volume só em meados da década de 90, e pode desaparecer até 2010. Nos Andes húmidos subtropicais, as grandes massas de gelo do Campo Gelado do Norte da Patagónia (Chile) e do Campo Gelado do Sul da Patagónia (Chile e Argentina) tinham perdido, nos anos 90, apenas 4 a 6% da área que ocupavam em 1945, mas o adelgaçamento tinha-se acelerado recentemente. Em partes do campo gelado meridional tinham-se verificado taxas de adelgaçamento entre 1995 e 2000 que eram superiores ao dobro das taxas médias durante as três décadas precedentes.
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Em cima, à esquerda:
Icebergues no Nordeste da Gronelândia, que alertam para a aceleração do degelo no Árctico.
(Foto: WWF-Canon / Michele Depraz).
Em cima, à direita:
Pinguins-Imperador, no Glaciar Dawson-Lambton, na Antárctida.
(Foto: WWF-Canon / Fritz Poelking). |
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Antárctida
A Antárctida está coberta por lençóis de gelo que contêm cerca de 95% da água doce do planeta. As temperaturas frias impedem uma fusão significativa da superfície, mas trabalhos recentes revelaram que a fusão ao nível inferior, por debaixo dos glaciares, na junção entre a terra e o mar, é rápida e está a alastrar por toda a Antárctida, possivelmente devido ao aumento da temperatura dos oceanos. Os mares mais quentes contribuíram também para o rápido adelgaçamento e quebra de muitos bancos de gelo flutuantes de grandes dimensões. Estes blocos podem escorar e retardar os glaciares, deslizando de encontro a eles. Muito embora não tenha havido alterações na velocidade dos glaciares após a perda do Banco de Gelo Wordie, várias das maiores correntes geladas que alimentavam o banco Larsen A correm 2 a 3 vezes mais depressa em direcção ao mar desde que este se quebrou em 1995. Ao mesmo tempo, no interior verificou-se um aumento na acumulação, porque está a evaporar-se mais água dos mares mais quentes e a cair sob a forma de neve. Desconhece-se em que medida estes ganhos compensam a perda de gelo nas orlas.
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Europa
Nas quatro últimas décadas, a maioria dos glaciares nos Alpes sofreram perdas de massa assinaláveis; isto é ilustrado pelos Glaciares Hintereisferner (Áustria), Gries (Suíça) e Sarennes (França), cada um dos quais perdeu o equivalente a 14 metros de espessura de gelo desde a década de 1960. A fusão de glaciares acelerou-se desde 1980 e, em menos de duas décadas, perderam-se 10 a 20% do gelo dos glaciares nos Alpes. A descoberta do corpo congelado de um homem, com 5300 anos, num glaciar que está a derreter-se em Itália demonstra que muitos glaciares são agora mais pequenos do que foram durante milhares de anos. A Organização Meteorológica Mundial afirmou que as temperaturas durante o Verão de 2003, que desencadearam inundações, deslizamentos de terras e a rápida formação de lagos glaciares, foram as mais quentes jamais registadas no Norte e Centro da Europa; se as tendências actuais continuarem, os Alpes Europeus perderão a maior parte da sua cobertura de glaciares dentro das décadas mais próximas. |
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Ásia
A vasta maioria de todos os glaciares dos Himalaias tem estado a retroceder e a adelgaçar-se nos últimos 30 anos, com perdas aceleradas na última década. Por exemplo, os glaciares nos Himalaias do Butão estão a retroceder a uma média de 30 a 40 metros por ano. Na Ásia Central, os glaciares estão a desaparecer a taxas excepcionalmente elevadas. No Tien Shan setentrional (Cazaquistão), os glaciares têm estado a perder, em conjunto, 2 quilómetros quadrados de gelo (0,7% da sua massa total) por ano desde 1955, e o Glaciar Tuyuksu retrocedeu quase um quilómetro desde 1923. Os glaciares na Cordilheira Ak-shirak (Quirguistão) perderam 23% da sua área desde 1977, assemelhando-se às perdas de área no Tien Shan setentrional (29% entre 1955 e 1990) e nos Pamirs (16% entre 1957 e 1980). No Tien Shan chinês, o Glaciar Urumqihe perdeu o equivalente a 4 metros de espessura de gelo entre 1979 e 1995, e a Administração Meteorológica Chinesa prevê que as montanhas do noroeste da China perderão mais de um quarto da sua actual cobertura glaciária até 2050. Estes glaciares fornecem 15 a 20% da água utilizada por mais de 20 milhões de pessoas, e isto apenas nas províncias de Xinjiang e Qinghai.
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África
A área dos glaciares tropicais em África decresceu em média 60 a 70% desde o início da década de 1990. Os campos gelados que coroam o Monte Quilimanjaro perderam 80% da sua área durante o último século e, apesar de terem persistido por mais de 10.000 anos, é provável que venham a desaparecer por volta de 2020. No Monte Quénia, 7 dos 18 glaciares presentes em 1900 tinham desaparecido em 1993, e quatro glaciares (Lewis, Tyndall, Gregory e Cesar) tinham perdido entre 60% e 92% das respectivas áreas. Os restantes glaciares nas Montanhas Ruwenzori do Uganda e da República Democrática do Congo estão também a derreter-se rapidamente, com perdas de área a variarem entre 53% (Speke) e 90% (Moore) durante o século XX.
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Fontes Consultadas:
Going, going, gone! Climate Change & Global Glacier Decline.
Texto e fotos reproduzidos com permissão do WWF.
© [2003] WWF World Wide Fund for Nature (anteriormente World Wildlife Fund).
Todos os direitos reservados.
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Pacífico Sul
Os Glaciares tropicais Carstensz, na Província da Papua (antiga Irian Jaya), na Indonésia, estão a fundir-se rapidamente; 80% da sua área colectiva desapareceram entre 1942 e 2000. O Glaciar do Meren Ocidental retrocedeu 2600 metros, desde que foi pela primeira vez monitorizado em 1936, antes de se derreter no período entre 1997 e 1999. Na Papua Nova Guiné, três cumes gelados que se sabia terem existido na Cordilheira Central desapareceram na década de 1960. Na temperada Nova Zelândia, 127 glaciares monitorizados nos Alpes Meridionais retrocederam 38% e perderam 25% da sua área desde meados da década de 1850; no entanto, muitos destes glaciares avançaram nas décadas mais recentes, presumivelmente devido ao aumento da precipitação.
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