# 1 | Setembro de 2001 | Editor: Luís Afonso (Portugal)
APRESENTAÇÃO

Esta é a primeira Newsletter CONTACTO, que se pretende um instrumento de divulgação científica e cultural e se propõe abordar temas curiosos, alguns mais conhecidos, outros nem tanto, mas sempre numa perspectiva de estimular o desejo por saber mais e conduzir a outras aventuras de descoberta pelos fascinantes mundos da Ciência e da Cultura, percorrendo um amplo leque de assuntos nas mais diversas disciplinas do saber.

Não se trata de uma publicação dedicada a especialistas e, por isso, os textos serão apresentados em linguagem acessível, que procurará, porém, ser rigorosa.

Nesta primeira edição começamos precisamente por uma temática menos comum.

A simples observação daquilo que nos rodeia é, por vezes, o ponto de partida para análises mais aprofundadas sobre temas aparentemente invulgares, mas que, quando nos debruçamos melhor sobre eles, conduzem a ideias e conceitos curiosos. Por exemplo, alguma vez reflectiu sobre até que ponto será possível relacionar de algum modo o ambiente natural e os tipos de música característicos das diversas culturas? (possivelmente estará a perguntar-se, quem se lembraria de pensar em tal assunto).

Pois bem, alguém o fez, e é a síntese das pesquisas então levadas a cabo que constitui o artigo de fundo deste primeiro número da CONTACTO.

Esperamos que goste e que nos faça chegar a sua opinião, com sugestões e comentários, através do endereço comments[at]revista-temas[dot]com

E, se realmente gostar, já agora avise os amigos. Até à próxima!

Luís Afonso
luis[at]revista-temas[dot]com
http://www.revista-temas.com/

Para quem gosta de conhecer...

AMBIENTE, MÚSICA E INSTRUMENTOS TRADICIONAIS

Texto:
Luís Afonso

Fotos:
Rui Oliveira
Este curto trabalho surge praticamente como uma curiosidade. Pela sua dimensão, trata-se de uma abordagem que não procurará, obviamente, fornecer respostas, mas tão-somente aflorar eventuais temas de reflexão que possam afigurar-se interessantes e merecedores de futura pesquisa e de estudos mais aprofundados.

Representa, por assim dizer, uma espécie de primeiro «reconhecimento do terreno» sobre até que ponto será possível descortinar uma relação, se é que existe, entre o meio natural envolvente e os tipos de música tradicional das diversas culturas? Terá o ambiente físico relevância nas formas musicais folclóricas consoante as várias regiões geográficas do Globo?

Num primeiro relance, podemos aparentemente analisar estas questões em pelo menos três vertentes distintas:

– uma primeira respeitante à relação que podemos encontrar entre ambiente e cultura; as soluções que cada povo ou civilização encontrou para se enquadrar no ambiente físico em que vive e que, naturalmente, irão condicionar os vários tipos de cultura da qual a expressão musical irá constituir parte integrante;

– uma segunda, perspectivada ao nível do indivíduo e agindo a par da cultura, que é a influência psicológica do ambiente físico no próprio músico, nomeadamente a latitude em que este habita (que irá condicionar a quantidade de horas de luz diárias e a intensidade luminosa ambiente), as cores dominantes da paisagem (que podem ser quentes ou frias), se vive em ambientes secos ou de chuvas constantes, em espaços abertos ou fechados, nas neves perpétuas, em desertos, florestas ou montanhas, no litoral ou no interior, etc., factores que poderão ou não influir directamente na sua «inspiração criadora»;

– e, finalmente, o tipo de materiais disponíveis no meio envolvente para a confecção de instrumentos musicais, que por sua vez irão permitir traduzir em forma de música modos próprios de sentir que são então reflexo de personalidades moldadas pela cultura e pelo ambiente físico acima citado.

Correremos o risco de andarmos à procura de uma certa forma de determinismo geográfico, no que diz respeito à cultura quando expressa em termos musicais? Quando, por exemplo, o investigador André Schaeffner nos diz: «Qualquer pessoa que atravesse os países tropicais nota um parentesco de espécie entre os ruídos naturais ou os gritos de animais e os timbres de instrumentos de preferência procurados» apercebemo-nos de que a musicalidade própria desenvolvida por cada povo terá sido certamente influenciada pelo meio. Mas as relações entre música e ambiente não serão (nem tão-pouco este autor o sugere, ressalve-se) com toda a probabilidade tão lineares.

Podemos obviamente intuir (numa atitude mais sentimental que científica, e de acordo com a nossa própria sensibilidade), que os ambientes montanhosos, adequados à transumância pastoril e à solidão prolongada dos vigilantes dos rebanhos, propensos à contemplação e tranquilidade, juntamente com factores como os ventos constantes ou o próprio eco das montanhas, favoreceriam aparentemente o surgimento «natural» de formas de tocar em que os sons são longos e melodiosos. Todos conhecemos as flautas de pastor, feitas de osso, de cana ou madeira, facilmente transportáveis. Em semelhante cenário, poderão vir-nos à memória melodias delicadas tocadas em flautas-de-Pã, hoje identificadas com a paisagem andina, mas que encontramos igualmente nas Ilhas Salomão. Por outro lado, é igualmente possível que tal paisagem nos recorde o som forte das trombetas sopradas pelos monges tibetanos, ou as enormes trompas de madeira que outrora os pastores helvéticos faziam ecoar pelos Alpes. Do mesmo modo sabemos também que, em regiões de climas quentes, cores vivas e luminosidade intensa, as formas de expressão musical típicas são, à primeira impressão, menos melodiosas, embora mais ritmadas e enérgicas; mas aí deparamo-nos com o exemplo dos pigmeus da floresta equatorial que dominam magistralmente um tipo de música vocal semelhante ao jodel (canto que conhecemos sobretudo das montanhas do Tirol austríaco, mas que podemos encontrar mais uma vez nas Ilhas Salomão). Poderemos então generalizar?

Para além de estarmos perante uma área de estudo pouco explorada (e dada a exiguidade de obras encontradas sobre o assunto), constata-se também não ser fácil aos estudiosos determinarem com segurança onde, e muito menos quando, terão surgido as primeiras formas daquilo que possamos apelidar de música.

Há quem considere existir uma ligação próxima entre o nascimento da música e o da linguagem falada, situando assim o despertar do sentido musical em tempos remotos. Um autor, Jacques Stehman, vai mesmo um pouco mais longe na analogia entre a génese da música e a da linguagem, ao afirmar que «os homens das eras mais recuadas, vivendo rodeados de mistérios inexplicáveis e de terrores diversos, sem recurso perante a hostilidade da natureza e os enigmas da criação, utilizam, antes mesmo de saberem falar, uma linguagem que representa um meio de comunicação com os espíritos ou com as forças que os dominam, ou ainda com as divindades que comandam essas forças».

Algo que parece não levantar grande controvérsia, é que o primeiro «instrumento» musical terá sido a própria voz humana. Já quanto à função do canto na vida social das primeiras comunidades humanas e ao porquê do seu surgimento existem menos certezas, permanecendo as incógnitas quando nos debruçamos sobre a génese dos primeiros instrumentos. O porquê dessa necessidade sentida pelos homens de produzirem outros sons para além da própria voz poderá relacionar-se com o ambiente envolvente, com a procura da imitação dos ruídos da natureza, muitos dos quais não compreendiam e temiam, mas cuja imitação traria ao indivíduo que a almejasse uma noção de poder e o respeito e temor dos demais elementos do grupo.

Especulando um pouco, imaginemos, por exemplo, nos primórdios da Humanidade, com o despertar do pensamento abstracto e da consciência de si mesmo, a sensação que provavelmente infligiria o violento ribombar dos trovões. Conseguir reproduzir, ainda que debilmente, tal manifestação sonora (algo que o tambor – se bem que surgido apenas no Neolítico – poderia permitir), seria por certo considerado uma façanha apenas ao alcance de quem possuía poderes sobrenaturais...

Entre os mais antigos instrumentos musicais que se conhecem figuram alguns apitos, com cerca de 40.000 anos, feitos de ossos de patas de rena, que foram encontrados em jazidas arqueológicas em França. Do Paleolítico Superior também foram encontrados outros apitos em osso (sobretudo de aves de grande porte) – nos quais os estudiosos reconhecem os antecedentes dos vários tipos de flauta que evoluíram posteriormente –, quer na Europa, quer no Egipto, quer ainda entre algumas sociedades contemporâneas de Índios da América. Tal não significa, no entanto, que os primeiros instrumentos a serem fabricados pelo Homem tenham sido forçosamente esses instrumentos de sopro. Na Gruta dos Três Irmãos, no Ariège francês, foram descobertas pinturas do mesmo período, nas quais os estudiosos identificaram o chamado arco musical – que consistia num arco em madeira flexível, com uma corda ou cipó tenso unindo as duas extremidades – considerado precursor da harpa e que é ainda usado em algumas partes da África e da Oceânia. É uma das mais antigas representações conhecidas de um instrumento de cordas.

Ao longo da evolução das sociedades humanas a música foi-se tornando parte integrante do património religioso nas várias culturas, não tendo assim, ao contrário do que poderíamos pensar, surgido como forma de expressão da sensibilidade individual – de resto, pelo menos no Ocidente, só há relativamente poucos séculos é que a música foi elevada à categoria de arte –, mas sim ligada a cerimónias e ritos com profundo significado mágico-religioso. As evidências parecem apontar que a musica terá tido, desde muito cedo, uma importante função social e psicológica, como aliás ainda hoje sucede em certas sociedades contemporâneas, por ocasião de ritos de passagem ou de iniciação, entre outros.

Não se afigura, de facto, fácil estabelecer uma relação entre ambiente geográfico, os materiais facultados pelo meio para a confecção de instrumentos e os tipos de música praticados pelas diversas culturas. Mas é possível, apesar de tudo, descortinar regularidades entre algumas formas de expressão musical e as latitudes nas quais se verificam.

Podemos constatar, que, por exemplo, a África, um continente em que encontramos uma enorme variedade de tambores e de formas de os tocar, revela uma parcimónia surpreendente no que respeita aos instrumentos de sopro, enquanto que flautas e cornetas tiveram muito maior expressão no continente americano e na Oceânia; ou que as civilizações antigas do Mediterrâneo e do Próximo Oriente não conheceram instrumentos de percussão aparentados com o xilofone, tão utilizados pelos Africanos (e pelos Asiáticos; um litofone – espécie de xilofone com lâminas em pedra – encontrado no Extremo Oriente foi datado como tendo três a quatro mil anos, tendo sido executado com técnicas que remontam ao Neolítico); ou ainda que os instrumentos de corda, como a harpa e a lira, que tanta expressão tiveram no Próximo Oriente, na Ásia e em África, na sua grande maioria só se tornaram conhecidos dos Índios americanos após a chegada dos Espanhóis.

Mas qual o porquê desta distribuição espacial? O que é que dela podemos concluir? São questões que deixamos em aberto.

Em antigos textos chineses encontramos registos de tambores feitos em argila; instrumentos semelhantes confeccionados durante o Neolítico foram descobertos na Alemanha Central o que parece relacionar o surgimento do tambor com o advento da olaria. Já alguns sinos asiáticos surgem apenas após a invenção do bronze. Estamos aqui perante algumas das soluções encontradas para amplificação do som. Uma das mais significativas, porque elementar, consistiu numa simples fossa cavada na terra. Coberta com uma prancha de casca de árvore que era percutida (com os pés, no caso de alguns Índios sul-americanos, ou com canas de bambu entre os Melanésios), emite um som semelhante ao de um potente tambor. Este tipo de ressoador seria aproveitado por exemplo para amplificar instrumentos de corda. Uma simples haste fixa ao solo mantendo em tensão uma corda que unia a sua extremidade livre ao centro da prancha, permitia que o som da corda em vibração fosse amplificado pela cova. Trata-se do arco-em-terra.

A muitos dos instrumentos mais simples e antigos foram adicionados ressoadores. Consoante os materiais disponíveis, tais ressoadores poderiam ser cascas de árvores ou de frutos (por exemplo cocos, ou cabaças), conchas, carapaças de animais (de tatu, na América do Sul, ou cascas de tartarugas).

Outro exemplo é o tambor de madeira, um tipo de tambor sem membrana que mais não é, no fundo, que um troco de árvore fendido longitudinalmente, do qual se retirou a polpa interior e se selaram depois as extremidades, restando apenas a camada exterior que é percutida directamente. A sua distribuição espacial é particularmente significativa. «É notável que um instrumento tão singular se encontre espalhado, sob aspectos pouco dessemelhantes, através de todo o mundo tropical: Sul da Ásia (onde atinge dimensões consideráveis, de seis a onze metros de comprimento), Indonésia, Melanésia, antigo México, Norte da América Austral, enfim, e principalmente, na África Negra» relata-nos Schaeffner.

Do ponto de vista acústico, a importância do material de que o instrumento é feito nem sempre parece ser muito relevante. Muitas vezes a sua importância prende-se mais com o simbolismo desse material no seio da cultura em questão que com os efeitos sonoros pretendidos.

Outro facto curioso é o de, em diversas culturas, os instrumentos musicais, nomeadamente os de sopro, serem identificados com cada um dos sexos, havendo instrumentos que só podem ser tocados por homens e outros apenas por mulheres. É possível constatar também a importância atribuída ao instrumento de música e ao próprio músico em si, a ponto de lhe ser socialmente reconhecido estatuto especial.

Enfim, levantada a ponta do véu, muito mais haveria para dizer. É improvável que se consiga estabelecer facilmente uma relação directa de causa-efeito entre ambiente e as primeiras formas de musicalidade, embora ela pareça ter existido, pelo menos em algum momento da história da cultura humana. Contudo, esta breve incursão ao tema é suficiente para nos apercebermos de que, naturalmente, as respostas às questões formuladas no início têm que ser enquadradas nos respectivos contextos, não só psicológicos e sociais, mas sem dúvida históricos, económicos, políticos, e provavelmente alguns mais, para além do geográfico, como é óbvio...

Bibliografia Consultada:

SCHAEFFNER, ANDRÉ,
«Génese dos instrumentos de música», in:
A Música – das origens à actualidade, Vol. I, Enciclopédia da Plêiade, Editora Arcádia, s/ local, 1965.

STEHMAN, JACQUES,
História da música europeia – Das origens aos nossos dias, 2.ª Ed., Enciclopédia de Bolso Bertrand, Livraria Bertrand, s/ local,
Maio de 1979.

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